"Jovens cardiologistas devem se preparar para lidar mais e mais com a hipertensão"


Professor honorário da Escola de Medicina da Universidade de Barcelona, na Espanha, Antonio Coca é um dos maiores nomes do mundo quando o assunto é hipertensão. Os números mostram bem isso: já editou mais de 60 livros sobre o assunto, publicou mais de 600 artigos em revistas internacionais de altíssimo impacto e proferiu mais de 900 palestras em congressos e outros encontros científicos.


Sem contar seu papel em diversas sociedades médicas, sendo ex-presidente da Sociedade Espanhola de Hipertensão e membro honorário da Sociedade Latino-Americana de Hipertensão, para ficar em dois exemplos apenas.


No entanto, por um triz nada disso aconteceria. No início de sua carreira, os ventos não sopravam a favor da Cardiologia. Cá entre nós, como muitos de seus colegas que completavam a formação em Medicina em 1979, Coca tinha uma inclinação a enveredar pelo mundo das doenças sistêmicas autoimunes, como o lúpus.


Mas, um belo dia, surgiu em sua mente a seguinte ideia: ora, a hipertensão também era uma doença sistêmica, afetando toda e qualquer estrutura do organismo sem exceção. “Afinal, todos os órgãos e todos tecidos são perfundidos pelas artérias”, pensou.


Sempre querendo saber mais sobre os mecanismos por trás das doenças, não à toa, ao começar a trabalhar em sua tese de doutorado pouco tempo depois, em 1980, ele concentrou seus esforços em analisar os mecanismos fisiológicos e moleculares que faziam a ingestão de sal elevar a pressão arterial.


“Na época, havia um grande interesse de vários cientistas em estudar como sódio passava pelas membranas celulares. Um deles era o Professor Ricardo Garay, um grande pesquisador argentino que trabalhava no Hospital Necker, em Paris”, recorda-se. “Minha tese de doutorado se aprofundou nos mecanismos que ele estudava e, depois de ler os resultados, o Prof. Garay me convidou a trabalhar com ele. Foi o início da minha orientação científica na área da hipertensão, a qual nunca mais larguei.”


Para sorte nossa — e sorte maior ainda de quem estiver no 77º Congresso Brasileiro/Mundial de Cardiologia e puder ouvi-lo.



No dia 15 de outubro, no congresso, o sr. dará uma palestra sobre o estado da arte no controle da hipertensão. Será que poderia nos adiantar alguns pontos?


PROF. COCA — Claro! A verdade é que nós temos excelentes drogas anti-hipertensivas, muito eficientes na redução da pressão sanguínea, capazes de normalizá-la na maioria dos pacientes e praticamente sem qualquer efeito colateral. No entanto, menos da metade dos indivíduos hipertensos está com valores normais de pressão. Qual seria a razão?


Nos países em que o sistema público de saúde cobre 100% do tratamento, como os da Europa Ocidental, a questão econômica não é o problema. Ele tem muito mais a ver com a relação médico-paciente e com a estratégia terapêutica anti-hipertensiva usada. Nos países de baixa renda, como a maioria dos latino-americanos, além da relação médico-paciente, você deve considerar a dificuldade do acesso da população ao sistema de saúde e a medicamentos — particularmente às melhores drogas. Esse é o desafio que precisamos encarar e superar. Controlar a pressão sanguínea de toda a população hipertensa nos países com recursos econômicos limitados é, de fato, um grande problema.


Do ponto de vista ético, não existe opção a não ser tentar ajudar as pessoas menos favorecidas para que tenham acesso a medicamentos. É uma questão de saúde pública, uma decisão governamental, algo para o qual nós, médicos, dificilmente daremos uma solução. O que podemos fazer é convencer os políticos sobre a importância de tratar a hipertensão para reduzir a carga das doenças cardiovasculares e sua mortalidade.


Já ponto de vista médico, nossa obrigação é usar as melhores drogas disponíveis e as melhores estratégias terapêuticas para cada paciente. Ou seja, medicina personalizada.



No mesmo dia, há uma conferência em que o sr. discutirá por que as diretrizes recomendam iniciar o tratamento anti-hipertensivo com uma única combinação de dois medicamentos. Por que esse é um hot topic no manejo da hipertensão?


PROF. COCA — É bastante sabido que o número de comprimidos prescritos está associado à não-adesão e ao abandono do tratamento. Estudos recentes mostram que até 80% dos pacientes não aderem aos medicamentos se recebem a prescrição de seis ou mais comprimidos por dia. Também sabemos que a aderência melhora quando a prescrição é para tomar os comprimidos uma única vez, pelas manhãs.


Se a pressão não é controlada com duas drogas, devemos partir para combinações de três ou mais. Já contamos com várias combinações de mais de três medicamentos com dose fixada que são muito eficientes e seguras. Elas reduzem o número de comprimidos e são essenciais para pacientes em tratamento de múltiplas comorbidades, como hipertensão, diabetes e dislipidemias, e para aqueles que sofreram um infarto do miocárdio ou um AVC, que têm insuficiência cardíaca ou doença renal crônica, particularmente para os idosos.


Se diminuirmos o máximo possível o número de comprimidos em prol da aderência e da persistência no tratamento a longo prazo, estaremos reduzindo a mortalidade. Portanto, um tópico fundamental é o cuidado na hora da prescrição e tentarei convencer os jovens médicos que estiverem no congresso disso.



Finalmente, por falar em convencimento — e, se quiser, sem perder o foco no tremendo desafio da hipertensão —, o que o sr. diria para convidar médicos e outros profissionais de saúde a se juntarem a nós no Congresso?


O Congresso Brasileiro e Mundial de Cardiologia 2022 é o fórum ideal para reunir clínicos e cientistas de todos os continentes, discutindo as doenças cardiovasculares na perspectiva da epidemiologia, da fisiopatologia e da terapêutica. A hipertensão, por sua vez, é o maior fator de risco e a principal causa de doença cardiovascular no mundo. Para completar, é mais prevalente em idosos, daí que deve crescer muito com o aumento da expectativa de vida. Portanto, jovens cardiologistas deverão se envolver mais e mais com esse problema em um futuro próximo. O congresso oferecerá a eles uma oportunidade única de acompanhar os avanços nesse campo, interagindo com os melhores e mais reputados cardiologistas e cientistas de todo o mundo.


Se já não está inscrito no Congresso, que acontecerá entre 13 e 15 de outubro no Centro de Convenções Riocentro, no Rio de Janeiro, faça isso agora mesmo clicando no link e aproveite a oportunidade de interagir com Prof. Coca e com outros grandes nomes da cardiologia mundial.